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Então Quem Fez o Universo?


Teístas acreditam que botam em xeque toda argumentação ateísta sobre a inexistência de Deus com duas frases: “Se Deus não existe, então quem fez o Universo?” e “os ateus acreditam que o Universo veio do nada por mero acaso”. Seriam Deus e o acaso as únicas alternativas para a origem do Universo? O que de fato significa acaso? Os ateus realmente acreditam no acaso ou trata-se de desonestidade teísta? Veja as respostas a estas e outras questões nas linhas seguintes.

Antropomorfismo

A perfeição dos objetos e seres ideais varia de pessoa para pessoa e de cultura para cultura, por isso certas culturas idealizam deuses difíceis de serem refutados, enquanto outras criam deuses ingênuos, mas suficientes para a exigência intelectual local. Para os ateus os deuses de qualquer religião são insuficientes para explicar a origem do Universo e eventos ocorridos nele, pois todos os deuses são antropomórficos, ou seja, possuem características humanas como mãos, corpo, inteligência e sentimentos diversos (amor, ira, tristeza, etc.), porém, nos dias atuais, são incapazes de se manifestar pessoalmente, levando à dedução lógica que são frutos da fértil imaginação humana alimentada por conclusões equivocadas sobre as múltiplas manifestações da Natureza. Munido desta consciência, o ateu amplia a questão de “quem fez o Universo?” para “qual a origem do Universo?”. Este questionamento mais abrangente admite desde um ser consciente a um evento inconsciente como origem, se é que existiu uma. Como um ateu concebe tal absurdo? Seu desprendimento emocional lhe proporciona liberdade para questionar a existência de um criador, pois não busca identidade fora de si.

Condicionados pelo Início e Fim

Um bebê não herda as rugas do
envelhecimento dos pais devido
à reposição dos telômeros.
O fato do ateu não acreditar na existência de Deus não o faz pensar que o Universo surgiu do nada por mero acaso, ele crê que tudo que existe é consequência de eventos anteriores e que “na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” (Lavoisier). A probabilidade de não ter existido nada é a mesma de o nada nunca ter existido, porém a forte sensação de que tudo exige um início é praticamente inseparável da mente humana devido ao condicionamento dos exemplos obtidos desde a tenra infância, pois vemos as pessoas, animais e plantas nascerem e morrerem, impérios surgirem e ruírem, o sol nascer e se por. Mas de fato a matéria continua apenas se transformando por bilhões de anos a fio. É bem possível que em nós circulem átomos que antes compunham o corpo de dinossauros que, por sua vez, estiveram no corpo de seres mais primitivos ainda, como os trilobitas. É natural animais e seres humanos velhos darem à luz filhotes e crianças com um corpo totalmente novo, sem carregarem o cansaço e as rugas dos progenitores, isso se deve à química de reposição dos telômeros – moléculas que compõem as extremidades do DNA – nas células reprodutoras, o que possibilita um novo ciclo de duplicação das células, levando o novo ser a manter seu corpo talvez por mais tempo que seus pais. Este milagre natural é repetido mecanicamente há milhões de anos. O início, a velhice e o fim são mudanças de estado e organização da matéria e não sua geração e degeneração. Enquanto não soubermos como tudo surgiu usaremos o deus das lacunas para preencher este espaço e satisfazer nossa necessidade de resposta que vai além de nossa capacidade de análise. Mas, consciente desta fraqueza humana, o ateu é capaz de recorrer ao método científico que, embora limitado, é mais eficiente que quaisquer outras formas de conhecimento.  Toda a nossa ciência, comparada com a realidade, é primitiva e infantil e, no entanto, é a coisa mais preciosa que temos (Albert Einstein).

Singularidade: O “Nada” Científico

Jatos de partículas de alta energia
causados por buraco negro na
galáxia Centaurus A - Observatório
Chandra - NASA
Em 2011 a sonda Gravity Probe B comprovou que Einstein estava certo quando teorizou que o tempo é distorcido pela gravidade de corpos massivos. O experimento começou a ser idealizado há mais de quatro décadas, mas teve de aguardar a evolução tecnológica para ser lançado em 2004 a uma distância de 600km da Terra. Após 6 anos de observação a sonda confirmou que a gravidade terrestre distorce o tempo e o espaço vizinhos como um redemoinho em meio às águas. Os buracos negros, também previstos por Einstein e detectados pela primeira vez pelo telescópio orbital Hubble, possuem massa tão grande que sua gravidade é capaz de capturar a luz. Isso significa que a velocidade produzida pela aceleração da gravidade destes corpos chega a ser maior que 300.000km/s (a velocidade da luz). Esta característica simplesmente anula o tempo nas vizinhanças de um buraco negro, criando o que os cientistas chamam de “horizonte de eventos”, ou seja, o que passa desta fronteira entra no estado de “Singularidade”, o “nada” científico. Na Singularidade nenhuma lei física é aplicável, pois temperatura, densidade, massa, pressão e gravidade se tornam infinitas e tempo e espaço nulos. Tudo que entra no estado de singularidade perde as 4 dimensões sentidas pelo homem (altura, largura, profundidade e tempo) além, provavelmente, das outras 6 deduzidas matematicamente. Antes de Einstein, o tempo era considerado a única grandeza invariável, mas, como tudo que compõe o Universo, este também se rende aos poderes da Natureza. Como a expansão do Universo para todas as direções remete a um único diminuto ponto há 13,7 bilhões de anos atrás, não é difícil deduzir que todo o Universo esteve na Singularidade devido à grande concentração de massa que, por sua vez, produzia gravidade mais que suficiente para parar o tempo e eliminar o espaço tridimensional juntamente com as outras dimensões. Esta característica simplesmente elimina a possibilidade de uma eternidade passada onde pudesse haver qualquer coisa, inclusos seres inteligentes como os deuses religiosos. Sem o tempo não há movimento, vontade, planos, ira, felicidade ou tristeza. As religiões monoteístas, a fim de engrandecer seu Deus, afirmam que ele subsiste desde a eternidade (um tempo infinito no passado), quando, na verdade, o tempo teve início. Um passado eterno simplesmente nunca acabaria, impossibilitando a existência do tempo presente e de tudo que ele contém, inclusos os seres humanos.

Epílogo

Acaso para o ateu é um “acontecimento inesperado, desconhecido ou imprevisível”, portanto o acaso só não existe para seres oniscientes. Dizer que o Universo surgiu do acaso soa desconfortável para a maioria das pessoas. Desta forma se percebe não só um conceito errado, mas um sentimento negativo sobre o acaso – o natural medo humano do desconhecido – que faz as pessoas o rejeitarem, pois nos sentimos confortados ao pensar que existe alguém que sabe tudo por nós similar aos pais na infância, como se  houvesse um ser que informasse com antecedência e evitasse as angustiantes surpresas da vida como, por exemplo, o câncer e acidentes graves, o que de fato não acontece tanto a crentes quanto a descrentes. Ateus não acreditam que o Universo veio do mero acaso ou do nada, mas de uma causa natural ainda não elucidada, porque antes do Big-Bang não havia tempo nem espaço, portanto o próprio “antes” não existia.

Ver também: A Origem de Deus.

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